Por Equipe JK
Cada vez mais globalizado, o futebol vive uma revolução em território brasileiro. Antes dominado pelos estaduais, as rivalidades locais e até mesmo pelos pequenos do interior que surpreendiam ao eliminar gigantes, o esporte nacional tem recebido, sobretudo neste século, a companhia de novos sotaques, línguas e um interesse forte das novas gerações por outros clubes.
Antes, era mais comum ver apenas camisas de times como Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Santos, Botafogo, Comercial e raras equipes de outros estados nas ruas de Ribeirão Preto e de todo o Brasil. Hoje, no entanto, tão frequente como um uniforme dos times paulistas é ver pessoas pelas ruas com as cores de Real Madrid, Barcelona, Manchester City, Arsenal, Liverpool, Paris Saint-Germain, Bayern de Munique e outros.
O fenômeno não é apenas uma moda passageira, mas uma mudança estrutural no consumo de esporte no país. Milhares de brasileiros agora acordam cedo nos finais de semana para acompanhar o Campeonato Inglês ou o Alemão com o mesmo fervor antes dedicado exclusivamente aos clubes nacionais.
Dados recentes comprovam que a paixão nacional pelo futebol não conhece limites geográficos. De acordo com o relatório Global Fan Report 2024, realizado pela Chiliz e pelo CLV Group, cerca de 87% dos torcedores brasileiros acompanham ou demonstram interesse por times internacionais. Mais impressionante ainda é o dado de que 21% dos brasileiros – um em cada cinco – já consideram um clube estrangeiro como seu time principal.

Essa conexão costuma florescer na infância ou juventude, muitas vezes impulsionada por ídolos específicos. Para Ana Clara Albuquerque, jornalista e influenciadora digital de 24 anos, tudo começou há pouco mais de uma década. “Me apaixonei pelo futebol alemão em 2014, pouco antes da Copa do Mundo no Brasil, quando conheci o jogador Marco Reus, do Borussia Dortmund”, recorda a dona da maior página dedicada ao futebol alemão no Instagram brasileiro.
O mundo digital
A trajetória de Ana Clara ilustra como o interesse individual pode se transformar em uma missão profissional. Hoje, ela é vista como uma das caras da Bundesliga no Brasil. Embaixadora oficial da liga germânica, atua como ponte para novos fãs.
“Muitos seguidores chegam à minha página dizendo que começaram a assistir ao campeonato depois de ver meus conteúdos”, afirma. Para ela, a divulgação nas redes sociais e a facilidade de assistir aos jogos pelos streamings formam a combinação perfeita para atrair curiosos que nunca tiveram interesse prévio por ligas estrangeiras.
Eduardo Garcia, engenheiro de software de 26 anos, é outro exemplo desta transição geracional facilitada pela tecnologia. Ele conta que sua simpatia pelo tradicional Arsenal surgiu de forma lúdica, entre as décadas passada e retrasada.
“Achava o máximo ter um jogador com meu nome no time do videogame (Eduardo da Silva, atacante que defendeu os ‘Gunners’ entre 2007 e 2010). Na época, não tinha tanta conexão com futebol real. Foi surgindo mais com base no videogame e evoluindo com a chegada de ídolos como Özil e Alexis Sánchez”, explica.
A facilidade de encontrar informações no mundo digital – caso dos jogos virtuais, como menciona Garcia – é um pilar fundamental para o crescimento do mercado. Se antes a barreira era o acesso físico, hoje os aplicativos democratizaram a audiência global.
“Ficou muito simples acompanhar, principalmente pelo fato de termos todos os jogos concentrados em um único canal de streaming e os horários tabelados”, pontua ao mencionar a Premier League e a Champions League como hábitos fixos no calendário de muitos torcedores em todos os cantos do Brasil.
O coração dividido
Um dos pontos mais sensíveis da pauta é a convivência entre o time do coração no Brasil e o clube europeu. Uma pesquisa de novembro de 2025 da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) com a Nexus indica que o Campeonato Brasileiro ainda detém a liderança emocional com 66% de aprovação. No entanto, o nível de excelência da Champions League é reconhecido por 27% dos brasileiros, um índice de qualidade técnica superior a qualquer competição nacional. Apenas a Libertadores, qualificada por 28% dos entrevistados como ótima, está à frente.
Apesar da prevalência entre os mais novos, não é obrigatório ser da Geração Z para apreciar o esporte jogado no Velho Continente e torcer para um time local. Essa dualidade é personificada por figuras públicas como o jornalista Tiago Leifert, que recentemente assumiu sua torcida , exatamente como Eduardo Garcia. O engenheiro explica que, embora o carinho pelos “Gunners” seja enorme, a hierarquia é clara: “Em primeiro lugar é sempre o São Paulo e em segundo também o São Paulo”, brinca. Em uma eventual final de Mundial de Clubes entre os dois, a lealdade ao Tricolor falaria mais alto.

Há quem prega que time só existe um por toda a vida. Também são-paulina, influenciada ainda criança por um primo e pela era vencedora de Rogério Ceni e Muricy Ramalho dos anos 2000, Ana Clara defende que a paixão não precisa ser excludente.
“Meu coração é 100% tricolor e 100% aurinegro, e não acredito que um anula o outro”, afirma a jornalista, que teve como trabalho de conclusão de curso na faculdade um blog sobre o Borussia Dortmund. Posteriormente, o trabalho avançou para além de um clube e se tornou a popular página Bumbundesliga, que cobre as equipes alemãs e atualmente ostenta 41,6 mil seguidores no Instagram.
Em apenas três anos, a paixão já abriu portas e rendeu à jovem viagens profissionais ao país europeu, além de encontros com símbolos como o ex-lateral Philipp Lahm e o ex-atacante Giovane Élber. “Eu acredito que não devemos nos prender apenas ao local que moramos. O mundo é enorme e há muito o que conhecer”, defende.
‘Geração Enzo’
O crescimento do interesse pelo futebol europeu também enfrenta o estigma dos chamados “Enzos”, termo usado de forma jocosa para definir jovens que supostamente preferem os times europeus aos brasileiros. Eduardo Garcia encara a brincadeira com naturalidade, mas aponta que o contato com o futebol europeu hoje é legítimo.
“É uma zoeira que sempre vai acontecer. No Brasil, a relação é passada de geração para geração. Quando se trata de outros países, você adere de forma mais orgânica, através de uma campanha surpreendente ou um jogador icônico. Por isso existem páginas dedicadas ao Bodø/Glimt, da Noruega (surpresa do cenário europeu nos últimos anos), e existiram muitas dedicadas ao Leicester, da Inglaterra (inesperado campeão da Premier League em 2016, mas recentemente rebaixado à terceira divisão)”, analisa.
Ana Clara, que vive o dia a dia desta comunidade, destaca que a resistência ainda existe, mas tem diminuído. “Os comentários sobre eu torcer também por um time da Europa sempre acontecem. Mas eu não deixo de admirar o futebol brasileiro por causa disso”, pontua. Para ela, o fato de ser de Ribeirão Preto, com dois clubes centenários e tradicionais, apenas reforça que o amor pelo futebol pode ser multicultural.
Durante suas idas à Alemanha como embaixadora, o que mais chamou sua atenção foi a cultura de estádio, algo que ela tenta traduzir para o público brasileiro. “O tanto de cerveja que eles tomam no estádio e os copos enormes são marcantes”, brinca.
Essa troca cultural é o que alimenta o crescimento das páginas de conteúdo especializado. Para a dupla de torcedores “mistos”, é um caminho sem volta. O cenário desenhado pelas pesquisas de 2024 e 2025, somado aos relatos dos fanáticos, mostra que o futebol europeu se tornou um hóspede permanente nos lares brasileiros. O interesse pela história e tradição dos clubes estrangeiros não parece roubar espaço do futebol nacional, mas sim ampliar o repertório do torcedor.
Um efeito disso é a chegada de jogadores europeus ao Brasileirão, algo pouco imaginado antes, quando um dos poucos a ter destaque por aqui foi o sérvio Petkovic, ídolo do Flamengo. Recentemente, o Corinthians contratou o inglês Jesse Lingard e o holandês Memphis Depay. Antes, o São Paulo já havia trazido o lateral-direito espanhol Juanfran e até mesmo o desconhecido lateral-esquerdo norte-irlandês Jamal Lewis. Outras contratações peculiares foram a do meia francês Dimitri Payet pelo Vasco e do centroavante dinamarquês Martin Braithwaite pelo Grêmio.
A facilidade tecnológica, a comunicação direcionada dos clubes europeus para o público brasileiro e a presença de influenciadores dedicados como Ana Clara são os motores dessa transformação, como resume a jornalista. “É até difícil conhecer alguém que não tem esse amor por algum time europeu, principalmente os mais jovens.”
Fato é que, se a oportunidade de conhecer novos gramados surgir, o novo perfil de torcedores não vai deixar passar. Ana Clara já conheceu estádios como a Allianz Arena, do Bayern de Munique, o Signal Iduna Park, do Borussia Dortmund, e a MHPArena, do Stuttgart, mas não quer parar por aí. Já Garcia espera, um dia, pisar em sua casa secundária.
“É muito legal acompanhar o Arsenal ascender novamente a nível europeu, chegar em finais, brigar por títulos e reassumir o protagonismo na liga. A distância nunca foi um problema, visto que até pra acompanhar o São Paulo não é tão fácil logisticamente. Óbvio que não se compara, mas existe essa distância [para a capital paulista]. Tenho muita vontade de conhecer o Emirates Stadium (estádio do Arsenal), só estou esperando uma boa oportunidade”, completa.