Especialistas alertam para os riscos do glaucoma, principal causa de cegueira irreversível no mundo, durante a Semana Mundial do Glaucoma.

O glaucoma recebe frequentemente dos oftalmologistas a alcunha de ladrão silencioso da visão. Segundo dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a patologia acomete mais de 250 milhões de pessoas globalmente e representa a principal causa de cegueira irreversível. Portanto, para conscientizar a população sobre os riscos dessa condição, ocorre entre 8 e 14 de março a Semana Mundial do Glaucoma.

Um dos maiores perigos associados ao glaucoma reside no fato de que, quando os primeiros sinais clínicos aparecem, o paciente já apresenta a visão comprometida. Por isso, o oftalmologista Gustavo Caiado, da Clínica Vittá, reforça um alerta crucial: esperar a visão embaçar para procurar atendimento médico pode configurar um caminho sem volta. A grande armadilha da enfermidade consiste na ausência de sintomas perceptíveis na rotina diária.

“O glaucoma é considerado uma doença silenciosa porque, na maioria dos casos, o dano ao nervo óptico ocorre de forma lenta e progressiva, sem provocar sintomas perceptíveis nas fases iniciais. Esse dano está geralmente relacionado a uma vulnerabilidade do nervo óptico, frequentemente associada ao aumento da pressão intraocular, que leva à perda gradual das fibras nervosas responsáveis pela transmissão das informações visuais ao cérebro”, explica o oftalmologista Gustavo Caiado.

O especialista detalha que a perda de campo visual começa pelas bordas, o que retarda a percepção do problema. “Inicialmente, a perda visual costuma afetar a visão periférica, o que muitas vezes passa despercebido pelo paciente, já que a visão central permanece preservada por bastante tempo”, relata.

O médico esclarece que, quando a visão começa a ficar embaçada ou quando o paciente percebe dificuldade para enxergar, a doença frequentemente já atingiu estágio avançado e parte da perda visual torna-se irreversível. Por essa razão, aguardar o surgimento de sintomas para buscar avaliação oftalmológica representa um risco elevado. “O diagnóstico precoce é fundamental para evitar a progressão da doença e preservar a visão”, reforça.

A Semana Mundial do Glaucoma integra uma iniciativa conjunta da World Glaucoma Association (WGA) e da World Glaucoma Patient Association (WGPA). O projeto evoluiu a partir do Dia Mundial do Glaucoma, celebrado inicialmente em 6 de março de 2008. Devido ao impacto positivo dessa mobilização, as associações decidiram ampliar as atividades educativas e lançaram oficialmente a primeira edição da semana temática em 2010.

Grupos de risco e mitos

Embora o acompanhamento oftalmológico seja recomendado para toda a sociedade, determinados grupos exigem atenção redobrada. Conforme aponta o oftalmologista Gustavo Caiado, indivíduos com histórico familiar da doença — especialmente parentes de primeiro grau —, pessoas com mais de 40 anos, afrodescendentes, pacientes com miopia elevada, diabéticos e usuários prolongados de corticoides enfrentam maior propensão ao desenvolvimento do glaucoma.

Além disso, um dos maiores mitos associados à enfermidade é a crença de que ela afeta exclusivamente quem apresenta pressão intraocular elevada. O especialista esclarece que a realidade clínica demanda exames complementares do nervo óptico e do campo visual.

“Embora a pressão intraocular elevada seja o principal fator de risco para o desenvolvimento do glaucoma, ela não é o único. Existe uma forma relativamente comum chamada glaucoma de pressão normal, em que o dano ao nervo óptico ocorre mesmo com valores de pressão intraocular dentro da faixa considerada normal”, afirma.

Ademais, a doença não restringe seu público aos idosos. O rastreamento deve iniciar nos primeiros dias de vida, com a realização do Teste do Olhinho, e prosseguir anualmente. A condição engloba formas congênitas, juvenis e secundárias, provocadas por traumas, inflamações ou uso indiscriminado de medicamentos.

Para fundamentar o diagnóstico, a tecnologia desempenha papel central. “O diagnóstico do glaucoma é realizado por meio de uma avaliação oftalmológica completa. Essa avaliação inclui a medida da pressão intraocular, o exame detalhado do nervo óptico, a análise do campo visual e exames de imagem que avaliam a estrutura da retina e das fibras nervosas, como a tomografia de coerência óptica (OCT)”, pontua o médico.

Avanços e qualidade de vida

Apesar do impacto inicial do diagnóstico, a oftalmologia contemporânea apresenta excelentes prognósticos baseados no controle rigoroso da enfermidade, visto que a cura ainda não existe.

“Embora o glaucoma não tenha cura, atualmente dispomos de diversas opções terapêuticas capazes de controlar a doença e preservar a visão na maioria dos pacientes quando o diagnóstico é feito precocemente e o tratamento é seguido corretamente”, tranquiliza o oftalmologista.

Atualmente, os tratamentos envolvem colírios hipotensores modernos, terapias a laser e cirurgias minimamente invasivas (MIGS), que garantem recuperação rápida e preservam a qualidade de vida dos pacientes.