Por Equipe 016
Luís César Zaccaro *
@dr.luiszaccaro
A inclusão recente da cirurgia robótica como parte do tratamento para o câncer de próstata na cobertura obrigatória do Sistema Único de Saúde (SUS) e no rol da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) marca um dos momentos mais relevantes da urologia brasileira nas últimas décadas. Não se trata apenas da incorporação de uma tecnologia, mas de uma mudança concreta na ampliação do acesso ao tratamento oncológico.
Durante anos, a cirurgia robótica foi uma realidade consolidada em diversos países, mas ainda restrita a uma parcela limitada da população no Brasil. Esse cenário começa a mudar agora. Quando ampliamos o acesso, não estamos falando apenas de inovação, mas de equidade. Estamos aproximando o paciente brasileiro de um padrão de cuidado mais moderno e menos agressivo.
O câncer de próstata continua sendo o tumor mais frequente entre os homens no país, com milhares de novos casos diagnosticados todos os anos. Em um contexto como esse, oferecer melhores alternativas de tratamento não é uma escolha, é uma necessidade. E a cirurgia robótica surge como uma resposta consistente a essa demanda.
Do ponto de vista técnico, trata-se de uma evolução importante. A possibilidade de o cirurgião operar com visão tridimensional ampliada e instrumentos articulados permite movimentos mais precisos, com menor trauma cirúrgico. Na prática, isso se traduz em menos sangramento, menos dor e uma recuperação mais rápida. Mas há um ponto que, para mim, é central: o impacto na qualidade de vida do paciente.
No tratamento do câncer de próstata, não lidamos apenas com a retirada de um tumor. Lidamos com funções que afetam diretamente a autonomia e o bem-estar do homem, como a continência urinária e a função sexual. A tecnologia robótica, ao permitir uma abordagem mais delicada e precisa, contribui para preservar essas funções de forma mais eficaz.
Outro aspecto que merece destaque é o amadurecimento do próprio sistema de saúde brasileiro. O crescimento expressivo do número de cirurgias robóticas nos últimos anos, aliado à ampliação de equipamentos e à regulamentação pelo Conselho Federal de Medicina, mostra que o país já reúne condições técnicas e estruturais para incorporar essa tecnologia de forma mais ampla.
Naturalmente, a inclusão no SUS e na saúde suplementar não resolve todos os desafios. Ainda será necessário investir em capacitação, infraestrutura e organização dos serviços. Mas o passo mais importante já foi dado: o reconhecimento de que essa tecnologia precisa estar disponível para mais pessoas.
Na prática clínica, sabemos que o tempo faz diferença no câncer. Diagnosticar cedo e tratar com qualidade são fatores determinantes para um bom desfecho para o paciente. Ao ampliar o acesso à cirurgia robótica, avançamos nesses dois pontos: oferecemos uma alternativa mais eficiente e reduzimos barreiras que antes limitavam o tratamento.
Este é, sem dúvida, um divisor de águas. Não apenas para a urologia, mas para a forma como pensamos o cuidado em saúde no Brasil. Porque, no fim, a tecnologia só faz sentido quando chega a quem precisa.
* Urologista, uro-oncologista e cirurgião robótico, delegado da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU-SP) e diretor do GEURP – Grupo de Estudos em Uro-Oncologia de Ribeirão Preto