Por Equipe 016

Rui Flávio Chúfalo Guião *
ruiflavio@santaemilia.com.br

Logo cedo, quando estou na varanda de minha casa, para o café da manhã, elas surgem. Primeiro, uma só, que avalia o terreno, esvoaçando com suas pequenas asas. Depois surge outra, mais outra, enfim um pequeno enxame que sobrevoa a mesa do café, em movimentos oscilantes de cima para baixo, de baixo para cima, deixando entrever suas pernas quase longas.

São as abelhas arapuás, nossa companhia constante. Como não têm ferrão e consequentemente não picam, deixamos que elas pairem tranquilas, ora sentando na tampa de um pote de geleia, ora pousando num recipiente de açúcar.

As abelhas já existiam na Terra na época dos dinossauros, milhões de anos atrás. A arapuá deve ter surgido de uma evolução das abelhas primitivas e sua característica maior é não ter ferrão. Para sobreviver num ambiente cheio de concorrência, a arapuá desenvolveu estratégias de defesa. Como vivem em colônias grandes e com muitas larvas para protegerem,substituíram os ferrões com veneno por outros tipos de defesa: têm mandíbulas fortes, grudam no invasor ( é comum se embaraçarem nos nossos cabelos ) e produzem resinas pegajosas para afastar os invasores. Na disputa por pólen e locais para criar as colmeias, tornaram-se oportunista, invadindo os espaços  de criação de outras espécies de abelhas e desenvolveram grande eficiência para sobreviver e crescer.

A arapuá é nativa das Américas onde se expande nas regiões tropicais deste continente, sendo mais comum no Brasil. Suas colmeias reúnem até 20.000 indivíduos, dependendo da disponibilidade de néctar e pólen nas proximidades. Sua estrutura é bastante diferente das abelhas com ferrão, a começar pela entrada, geralmente uma estrutura tubular de cera, guardada sempre por arapuás-soldado. Entretanto, podem ser de gravetos ou barro.

Internamente, tem uma estrutura irregular e caótica, se comparada às colmeias das outras abelhas, que porém funciona com muita eficiência. Sua principal área é o berçário, onde, em células arredondadas ou ovais, ficam as larvas, que se transformam em pupa e depois abelhas adultas. Para manter a subsistência do berçário, as arapuás fazem, ao redor, potes de mel e de pólen, que alimentam as nascituras.

Não são exigentes na escolha do local da colmeia, podendo ser em troncos grossos de árvores, arbustos densos ou cavidades naturais, sempre em local um pouco elevado, com boa ventilação e protegido da chuva.

Muito bem adaptadas às cidades, fazem suas colmeias em postes de luz, muros e paredes, telhados, caixas de ar condicionado.

Tenho procurado, em vão, o local de nidificação de minhas abelhinhas. Elas surgem e desaparecem do nada.

No nosso folclore encontramos várias lendas sobre elas, especialmente na área rural. Como ela insiste em ficar rodeando a pessoa próxima, dizem ser portadora de mau agouro ou má notícia. Ao mesmo tempo, a existência de uma colmeia sua em casa é sinal de prosperidade e abundância. Os povos originários as enxergam como protetoras das florestas, suas sentinelas e todas as lendas as associam a espíritos ou a energias invisíveis.

As arapuás também servem de aviso de chuva ou mudança no clima quando ficam  muito agitadas.

Quem mais aprecia nossas arapuás é meu bisneto de dois anos e meio, que fica fascinado pelo balé das abelhinhas, esvoaçando em sua frente.

* Advogado e empresário, é presidente do Conselho da Santa Emília Automóveis e Motos e secretário-geral da Academia Ribeirãopretana de Letras

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