Para a nutricionista Vivian Cognetti, parte dessa “neura” vem de uma preocupação válida com a composição corporal e o envelhecimento saudável
Se você já se interessa por alimentação saudável, o assunto de que vamos falar pode não ser uma novidade e, ainda assim, é relevante. Mas se o assunto ainda não entrou na sua bolha, vamos ao contexto: nos últimos meses, perfis nas redes sociais voltados à alimentação saudável, exercícios físicos e, de um modo geral, bem-estar, têm intensificado as menções sobre proteínas, um nutriente essencial para o funcionamento do corpo.
Esse tema, que parece ter virado a “obsessão” do momento, coloca alimentos proteicos como protagonistas em dietas e recomendações feitas por um tanto de gente, inclusive não-especialistas, de modo que já é possível encontrar os reflexos desse movimento nas prateleiras dos supermercados (vide o boom de produtos ressaltando a quantidade de proteínas).
Por aqui, também não somos especialistas – e por isso fomos falar com quem é! Conversamos com a nutricionista Vivian Cognetti (CRN 46435) para entender melhor o que são as proteínas, como elas atuam no corpo humano e de onde vem essa “obsessão”, ou seja, esse comportamento generalizado do mercado.
“A indústria percebeu esse movimento e começou a adicionar proteína em praticamente tudo: iogurtes, barras de cereais, sorvetes, bebidas, snacks, muitas vezes criando a sensação de que ‘quanto mais proteína, melhor’. E nem sempre é tão simples assim.”
– Vivian Cognetti, nutricionista
O que são as proteínas?
Ao contrário do que muitos pensam, aponta Vivian, a proteína não está somente associada aos músculos e possui uma participação essencial em praticamente todos os processos do corpo: formação de tecidos e produção de hormônios, enzimas, imunidade, cabelo, pele e unhas.
“Ela funciona como pequenos ‘blocos de construção’ do organismo. E como o corpo não consegue produzir todos sozinho, precisamos obter através da alimentação”, explica a nutricionista.
Existe mais de um grupo desse nutriente, tendo como principal diferença entre eles a composição de aminoácidos que o formam e a capacidade que o corpo tem de aproveitá-los. “Costumamos dividir em proteínas de origem animal e de origem vegetal. As de origem animal, como carne, ovos, peixe e leite, normalmente têm todos os aminoácidos essenciais em boas quantidades e uma digestibilidade maior, por isso costumam ser consideradas proteínas de alto valor biológico”.
Já as proteínas vegetais – feijão, lentilha, grão-de-bico e oleaginosas –, como Vivian explica, podem ter menor quantidade de alguns aminoácidos específicos. Mas isso não significa que sejam “piores”. “Quando existe variedade alimentar ao longo do dia, é totalmente possível atingir uma boa qualidade proteica também em padrões alimentares vegetais”, complementa a nutricionista.
Para além do animal e vegetal, hoje também temos o whey protein, colágeno e proteínas adicionadas em produtos industrializados, que costumam ter uma ótima concentração de aminoácidos importantes para a síntese muscular. Contudo, o mais importante é olhar o contexto geral da alimentação e a necessidade de cada pessoa.
“O problema é que, nas redes sociais, muitas vezes isso vira uma obsessão por bater metas muito altas, o que pode acarretar riscos à saúde”, alerta Vivian.
A proteína dentro dos hábitos alimentares
Assim como outros nutrientes, não existe uma quantidade única de consumo da proteína que sirva para todo mundo. A necessidade varia de acordo com idade, fase da vida, nível de atividade física, composição corporal, objetivos e até condições de saúde. “Uma pessoa sedentária tem uma necessidade diferente de alguém que treina musculação, está envelhecendo, passou por uma cirurgia ou está em processo de emagrecimento”, explica a especialista.
Se o consumo é menor que o necessário, a pessoa pode apresentar perda de massa muscular, fraqueza, dificuldade de recuperação, queda de cabelo, unhas mais frágeis, pior cicatrização e até alterações na imunidade.
Apesar disso, é importante saber que deficiência proteica grave não é algo comum em quem tem acesso regular à alimentação, e que hoje, muitas vezes, vemos mais um desequilíbrio alimentar que uma deficiência severa propriamente dita.
Mesmo que seja associada ao crescimento dos músculos, a especialista reforça que consumir proteínas em excesso não gerará automaticamente mais massa muscular ou saúde. “Quando a alimentação fica focada em proteínas, muitas vezes outros aspectos importantes acabam sendo deixados de lado, como fibras, frutas, vegetais e variedade alimentar”.
Dietas hiperprotéicas não fazem com que os músculos “estoquem” nutrientes, ou seja, o corpo utilizará aquilo que precisa, e o restante poderá ser usado como fonte de energia ou armazenado na forma de gordura, dependendo do contexto da alimentação e do gasto energético da pessoa.
“A questão é o equilíbrio. O problema atual não é a proteína em si, e sim a ideia de que quanto mais proteína um alimento tiver, automaticamente mais saudável ele será”.
Além disso, Vivian faz um alerta para quem possui problemas renais pré-existentes, porque, nesses casos, uma ingestão excessiva pode implicar no agravamento da condição.
O papel da internet na alimentação
Parte da popularização dessa tendência – ou da “obsessão”, segundo Vivian, é o aumento da preocupação com a composição corporal, envelhecimento saudável, saciedade e saúde muscular, incentivado pelas redes sociais. “A proteína ganhou uma imagem de nutriente ‘do bem’: ela ajuda na saciedade, participa da manutenção da massa magra e costuma estar associada a uma alimentação vista como mais saudável”, aponta.
Outro aspecto que influencia o comportamento é a popularização das canetas emagrecedoras. “Já se sabe que uma perda de peso sem um cuidado adequado com ingestão proteica e musculação pode levar também à perda de massa muscular. Então, a proteína acabou virando protagonista desse discurso”, elabora Vivian.

