Por Equipe JK

Kota Shimura está de rosto pintado de branco, os colegas filmam, ele não reage, não grita e não chora. Abaixa a cabeça e engole, como faz todo dia. É o tipo de cena que aperta o estômago, não porque seja exagerada, mas porque parece assustadoramente familiar.

É assim que Viral Hit te fisga. Antes de qualquer briga, antes de qualquer virada, a Netflix apresenta um garoto partido e aposta que você vai querer ver o que acontece quando ele decide mudar. Vale a aposta? Quase sempre, sim.

As Cores do Mal: Preto: Filme da Netflix prova que cidades pequenas guardam os piores segredos

O garoto que o sistema esqueceu

Kota tem tudo contra ele. A mãe está hospitalizada, as contas não fecham e na escola, é o passatempo preferido dos valentões. Não tem amigos que intercedam, não tem professor que note, não tem saída que apareça.

É o tipo de figura que a vida real produz com frequência, mas que a ficção raramente tem paciência para explorar em toda a sua complexidade. Viral Hit não resolve rápido, ela deixa o peso pousar primeiro.

A virada vem quando uma briga com um colega é transmitida ao vivo por acidente e se torna viral na internet. Com isso, Kota percebe, pela primeira vez na vida, que aquilo que sempre foi usado contra ele pode ser uma ferramenta. Ele lança um canal de brigas ao vivo. Começa a treinar, começa a ganhar dinheiro, começa, enfim, a existir.

Isso aqui não é realismo, e bem que não precisa ser

Se você entrar em Viral Hit esperando um drama escolar japonês tradicional vai sair frustrado. Os socos desafiam a física, as alianças mudam rápido demais e nenhum adulto parece existir no mesmo universo que esses adolescentes. A série pede, sem cerimônia, que você suspenda a descrença e embarque.

Feito isso, a coisa funciona muito bem. As sequências de briga têm coreografia boas e uma energia que puxa o episódio pra frente sem dar tempo de respirar. Quem cresceu com Naruto, com Hajime no Ippo ou mais recentemente com Classe dos Heróis Fracos vai reconhecer o ritmo imediatamente.

O problema não é o exagero. O problema é quando o roteiro usa o exagero como desculpa pra não construir direito, e isso acontece em alguns momentos. Inimigos que quase se mataram viram aliados no episódio seguinte sem que nada justifique além da conveniência narrativa. Incomoda, mas não quebra.

Ouji Suzuka faz o que o roteiro não consegue fazer sozinho

Toda a estrutura da série depende de uma coisa: você precisar torcer . Se o ator errar esse passo, é tudo por água abaixo. Ouji Suzuka não erra, pelo contrário, ele entrega uma performance que surpreende.

A transformação do personagem não acontece em discursos, mas em detalhes: a postura que vai mudando, o olhar que vai ganhando peso, a doçura que ele preserva mesmo quando Kota começa a ganhar.

O elenco ao redor sustenta bem. Ai Mikami como Aki Yashio tem presença, não sendo apenas o interesse romântico decorativo que o gênero costuma produzir. Araki Sugou como Toru Kaneko rouba cenas com um timing de comédia preciso, e Mieko Harada aparece pouco, mas cada cena dela lembra que existe um mundo adulto em volta, mesmo que a série prefira esquecê-lo.

Aprendendo a Lição – Crítica: k-drama da Netflix transforma sala de aula no lugar mais perigoso da Coreia do Sul

A parte que ninguém esperava: isso tem o que dizer

Aqui está o que separa Viral Hit de uma série de ação genérica: ela sabe exatamente o que está satirizando. A ideia de monetizar briga, de transformar humilhação em conteúdo e de crescer dentro de um sistema onde atenção online vale mais do que qualquer mérito, não é apresentada como vilania nem como solução.

É apresentada como realidade. E isso incomoda do jeito certo, porque é o mundo que a gente conhece. É o que acontece em qualquer rede social toda vez que alguém sofre em público e o vídeo explode.

A série não aponta o dedo. Ela só mostra o mecanismo funcionando, e deixa o desconforto do lado do espectador. Para um produto de entretenimento popular, isso é mais do que se pode esperar.

Viral Hit está disponível na Netflix.

By

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *