Por Equipe JK

Um gênio, um dos maiores expoentes da irreverência sul-americana com a bola nos pés e o mais talentoso jogador de futebol de toda uma geração. Embora nunca tenha atuado profissionalmente , Lionel Andrés Messi Cuccittini representa a região como poucos. , a ligação com a América do Sul do atleta, que se desenvolveu na Europa, foi questionada até mesmo pelos argentinos. Seu DNA, no entanto, conhece a fundo o terreno local graças a uma história comum, até certo ponto, à de tantos paulistas: os antepassados do craque deixaram a Itália e passaram , onde nasceu seu bisavô, Federico, antes de desembarcarem em Rosário.

A informação tomou as redes sociais no Brasil durante a Copa do Mundo e os internautas imaginaram o meia-atacante com as camisas de Botafogo e Comercial. Afinal, depois de fazer sucesso no Barcelona, a dupla Messi e Neymar provavelmente teria conquistado grandes títulos também com a camisa da seleção brasileira se a jornada tivesse parado no interior de São Paulo. Responsável pela pesquisa que desvendou a origem do camisa 10, o pesquisador italiano Fiorenzo Santini explica a relação do ícone es . Tudo começou no século XIX, na região de Marche – ou Marcas –, no leste da Itália.

“Quando o Messi veio para a Europa, percebi que ele tinha origens na minha região, Marche, . Sou um apaixonado pesquisador da emigração de Marche para a Argentina e para o mundo. Em 2015, quando deixei meu trabalho no banco, comecei a tentar entender e encontrar um contato com a família Messi”, relembra o ex-bancário e sociólogo, torcedor da Internazionale de Milão.

Fiorenzo Santini, ex-bancário, sociólogo e pesquisador responsável pela descoberta | Arquivo pessoal

De sua casa, Santini reuniu documentos para recom . As raízes paternas de Messi vêm da cidade de Recanati, na província de Macerata, em Marche. A informação foi descoberta . Santini, então, encaixou outra peça do “quebra-cabeça”: o jogador e seu pai, Jorge, constavam no AIRE (Registro dos Italianos Residentes no Exterior) em Recanati há anos, sem que ninguém soubesse.

A informação foi a público e o prefeito do município realizou uma grande campanha midiática, exatamente o contrário do desejado pela família Messi, que buscava privacidade. Com isso, Santini perdeu o contato que tinha com Jorge.

Mas o ex-bancário não desistiu e direcionou sua pesquisa para o lado materno, dos Cuccittini. O sobrenome não existe mais na Itália, segundo o pesquisador, o que manteve a busca emperrada , até que ele teve uma ideia.

“Como em Rosário ainda existem algumas famílias chamadas Cuccittini e eu tenho dezenas de contatos em associações italiano-argentinas, liguei para um amigo meu, o advogado Miguel Milano, que é o advogado da família Messi. Pedi a ele que me colocasse em contato com algum Cuccittini. Ele me deu o contato do Luis Cuccittini, primo da mãe do Leo, que é padeiro e trabalha à noite”, recorda. Assim como na produção desta matéria, a comunicação foi adaptada, mas o sentimento geral foi compartilhado com clareza.

“Ele falava espanhol e eu italiano, mas nos entendíamos. Quando perguntei de onde vinha a família na Itália, ele me disse, emocionado: ‘Estou arrepiado, ’. Macerata é a mesma província da parte paterna do Messi. As cidades dos trisavôs dele ficam a apenas 20 minutos uma da outra”, conta Santini.

Instigado pelo sonho, Luis conversou com uma tia e confirmou o município de origem: San Severino Marche, uma pequena comuna com pouco mais de 12 mil habitantes. Ao solicitar os documentos à prefeitura, Santini encontrou a prova documental que conecta o maior futebolista da história recente a Ribeirão Preto.

“Em 1893, Ângelo Messi e Maria Latini, trisavôs paternos, partiram de Recanati e subiram a bordo do navio Sud America II, que saiu de Gênova. Já Raniero Coccettini e Rosa Ricchezza, trisavôs maternos, partiram seis anos depois, em 1899, no navio Washington, também de Gênova. Só que a família materna parou . Pedi os documentos à prefeitura de San Severino e encontrei o registro de Raniero Coccettini e Rosa Ricchezza com seus quatro filhos: dois nasceram em San Severino e dois nasceram em Ribeirão Preto”, revela.

A arte imita a vida

Depois de desembarcarem em Santos (SP) e passarem apenas meia década em Ribeirão Preto, os ancestrais maternos de Messi seguiram para Rosário, atraídos pela forte presença de marquesões. Entre o final do século XIX e o período pós-Segunda Guerra Mundial, cerca de 200 mil pessoas saíram de Marche rumo à Argentina. Hoje, a região italiana tem 1,5 milhão de habitantes, enquanto, no país sul-americano, há uma estimativa semelhante de descendentes, o que forma, segundo Santini, “uma segunda região de Marche”.

A travessia da família provocou a alteração gráfica dos nomes ao chegarem em Santos (SP). Muitas famílias que se estabeleceram em território nacional passaram , e a ocorrência também é exemplificada no cinema, uma das paixões da Itália.

“A mudança de sobrenome era muito comum na época. Os funcionários da alfândega anotavam os nomes como entendiam. Quando chegaram ao Brasil e depois seguiram para a Argentina, Raniero Coccettini virou Ramiero Cuccittini, e Rosa Ricchezza virou Rosa Ricueza, praticamente a grafia adaptada à pronúncia em . É um fenômeno muito parecido com aquela cena do filme ‘O Poderoso Chefão’, quando o jovem Vito Corleone chega à Estátua da Liberdade, em Nova York, e tem seu sobrenome alterado no registro. O personagem dizia: ‘Chamo-me Vito Andolini, de Corleone’, e o guarda da imigração anotava ‘Vito Corleone’, e ficava assim para sempre”, explica o pesquisador.

A passagem dos antepassados maternos de Messi pelo Brasil foi curta, mas deixou uma ligação eterna do craque com a cidade. Ramiero (antigo Raniero), que veio ao país para trabalhar como agricultor numa fazenda em Rincão (SP), e Rosa, que já tinham dois filhos, Giulia e Francesco, tiveram mais dois em Ribeirão Preto: Erminia e Arderigo.

O mais novo, nascido em 27 de janeiro de 1904, era o bisavô do camisa 10 argentino. Nem mesmo ele, já nascido na América do Sul, ficou imune à mudança na grafia no momento do registro. Assim, em 27 de setembro de 1905, o agora Federico embarcou para Rosário, onde nasceram os avós, pais e o próprio Lionel Messi, em 24 de junho de 1987.

“Luis Cuccittini me mandou o documento mais antigo que tinha na Argentina, no qual Arderigo Coccettini virou Federico Cuccittini”, menciona Fiorenzo Santini, que, com sua persistência, rendeu a Messi o título de cidadão de honra de San Severino Marche, em 2022.

Vários destinos, uma só história

Apesar do parentesco ilustre com o gênio do futebol mundial, os Cuccittini e os Messi passaram pelas mesmas dificuldades e incertezas de tantos outros que deixaram a Europa em busca de uma vida melhor, fossem italianos, espanhóis, alemães ou . A tarefa de embarcar em um navio e cruzar o Atlântico não era fácil e, , estavam núcleos familiares que demonstraram resiliência para estabelecer raízes longe de casa, lutar contra a barreira do idioma e encontrar trabalhos de baixa remuneração.

Documento que detalha a rota da família Cuccittini de Marche à América do Sul | Arquivo pessoal

“ ? . Pobreza e falta de trabalho. Quando comecei a pesquisar e a contar essa história, os descendentes dessas pessoas choravam, , absolutamente nada. As pessoas queriam apenas uma vida melhor”, resume.

Essa realidade também impactou a vida de Santini. Sua tia-avó emigrou para a Argentina no início do século XX e as irmãs nunca mais se encontraram pessoalmente. Na juventude, cabia ao pesquisador redigir as cartas enviadas à parente distante, que se estabeleceu em Mar del Plata, pois a avó era analfabeta.

Décadas mais tarde e com o endereço ainda guardado na cabeça, ele retomou o contato com os primos argentinos, que eventualmente viajaram à Itália para conhecer o berço de seus antepassados e encontraram uma terra fértil em criatividade e talento.

“Em um raio de pouquíssimos quilômetros, na mesma zona da província de Macerata, temos as origens de Lionel Messi, em San Severino e Recanati; de Manu Ginóbili, o maior jogador de basquete não-americano do mundo, que tem pais e mães de Corridonia e Pollenza; e de Lionel Scaloni, técnico da seleção argentina, que tem avós da região. Todos em um raio de dez a 20 minutos de distância uns dos outros.”

Mas as personalidades com origens em Marche não são apenas es , embora o ex-jogador argentino Roberto Néstor Sensini também tenha antepassados de San Severino. A lista ainda contempla nomes como o presidente argentino Javier Milei, o ex-presidente uruguaio Pepe Mujica, a atriz brasileira-americana Morena Baccarin, o ator norte-americano Don Amiche e diretor Robert Zemeckis, responsável “De Volta para o Futuro”, Forrest Gump” e “Náufrago”.

Em São Paulo, cidade que Santini classifica como a maior metrópole de descendentes italianos do mundo – são cerca de 6 milhões –, a presença de Marche deixou marcas profundas na arte. Foi de Ancona, cidade natal do pesquisador, que partiu o escultor Galileo Emendabili, responsável .

Independentemente se no Brasil, na Argentina, nos Estados Unidos ou em qualquer outro canto das Américas, os italianos ajudaram a moldar a imagem diversa do continente, onde diferentes culturas se encontram e podem prosperar. Esse foi o caso de tantas “famiglias” como os Messi e os parcialmente ribeirão-pretanos Cuccittini.

“O mais bonito disso tudo é ver como pessoas simples, que saíram da Itália com tanto sofrimento, fome e saudades, acabaram gerando filhos e netos que se tornaram figuras ilustres”, completa seu emocionado relato Santini.

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