Novo relatório da OMS projeta salto nos diagnósticos de câncer até 2050 e destaca que a prevenção pode evitar até 40% dos casos.

O câncer tem potencial para se consolidar como um dos maiores desafios enfrentados pela saúde pública global nas próximas décadas. Um relatório inédito divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), elaborado em parceria com a Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC), projeta que o total de novos diagnósticos da doença deve saltar de aproximadamente 20,6 milhões por ano para cerca de 35 milhões até o ano de 2050. O estudo aponta ainda que uma a cada cinco pessoas será diagnosticada com algum tipo de câncer ao longo da vida, enquanto 92% da população mundial sofrerão algum tipo de impacto direto ou indireto devido à enfermidade, seja por caso próprio ou de familiares.

O levantamento também joga luz sobre disparidades alarmantes no acesso a serviços de prevenção, diagnósticos precoces, tratamentos e assistência especializada. Enquanto nações desenvolvidas registram melhores taxas de sobrevida, milhões de cidadãos em áreas vulneráveis enfrentam barreiras severas para exames e terapias adequadas. Para o médico oncologista Diego Machado, o avanço dos números não aponta para uma condição inevitável, mas reforça a urgência de aprimorar políticas públicas e conscientizar a sociedade sobre os fatores de risco.

“O envelhecimento da população contribui para esse aumento, mas ele não explica tudo. O estilo de vida moderno, com alimentação inadequada, sedentarismo, obesidade, consumo de álcool, tabagismo e exposição excessiva ao sol, também exerce um papel importante. A boa notícia é que grande parte desses fatores pode ser modificada”, afirma.

Dados da própria OMS indicam que até 40% dos episódios de câncer poderiam ser evitados por meio de ações preventivas básicas, como abandonar o tabagismo, moderar o consumo alcoólico, manter uma dieta equilibrada, praticar exercícios físicos de forma rotineira, controlar o peso, utilizar proteção solar, receber imunizações contra vírus associados à doença — a exemplo da hepatite B e do HPV — e integrar programas de rastreamento direcionados por faixa etária. O especialista enfatiza que a prevenção ultrapassa o ambiente clínico e demanda engajamento pessoal.

“A prevenção não acontece apenas dentro do consultório. Ela começa nas escolhas do dia a dia e também no acompanhamento médico periódico. Quando o câncer é identificado em fases iniciais, as chances de cura aumentam significativamente e, muitas vezes, os tratamentos são menos agressivos e oferecem melhor qualidade de vida ao paciente”, explica Diego Machado.

Outro vetor destacado pela OMS é a transição demográfica, marcada pelo envelhecimento populacional e pela ampliação da expectativa de vida. Com mais pessoas atingindo idades avançadas, a incidência de câncer tende a crescer organicamente, visto que o risco da doença se eleva com a idade. Diante disso, profissionais apontam como imprescindível o aporte de recursos em prevenção, educação sanitária e expansão da rede especializada. Para Diego Machado, a sociedade precisa compreender que combater o câncer é uma responsabilidade compartilhada entre governos, profissionais de saúde e população.

“Precisamos substituir a cultura de procurar ajuda apenas quando surgem sintomas pela cultura da prevenção. Informar, vacinar, rastrear e incentivar hábitos saudáveis são estratégias capazes de salvar milhares de vidas todos os anos. Quanto antes agimos, maiores são as possibilidades de mudar essa realidade.”

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