Por Equipe JK

Quando uma série decide adaptar um livro pela segunda vez seguida, o desafio deixa de ser apresentar personagens novos ao público e passa a ser outro, mais espinhoso: manter quem já conhece a história interessado sem trair o que tornou aquela história boa.

Manual de Assassinato para Boas Garotas sabia disso. E, na 2ª temporada disponível na Netflix, a produção fez escolhas que merecem ser examinadas com calma, especialmente por quem leu Good Girl Bad Blood, o segundo livro da trilogia de Holly Jackson.

ATENÇÃO: SPOILERS A PARTIR DAQUI

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Jamie e o julgamento de Max

No livro, os dois grandes arcos da história correm em paralelo sem se tocarem diretamente: de um lado, o julgamento de Max Hastings pelo sequestro de Becca e Nat; do outro, o desaparecimento de Jamie, irmão de Connor.

A série une os dois fios de uma forma que faz todo sentido dramaticamente: Jamie é apresentado como testemunha-chave no julgamento de Max, alguém que viu o que aconteceu com Nat. O desaparecimento dele, portanto, ganha duas urgências ao mesmo tempo: a das primeiras 72 horas de um desaparecimento, e a do tribunal que precisa ouvi-lo.

É uma alteração que a narrativa da série agradece. O livro funciona com os dois arcos separados porque a estrutura fragmentada do texto cria tensão de outra forma. Na tela, era necessário costurá-los.

Pip e Ravi: mais sérios, mais frágeis

No livro, Pip e Ravi só assumem o relacionamento no começo de Good Girl Bad Blood. A série antecipou o beijo para o final da primeira temporada, então na segunda eles já chegam como casal estabelecido.

O Ravi da série diz “te amo” logo no primeiro episódio, algo que no livro acontece bem mais tarde. E a série vai além: a relação entre os dois inclui intimidade física, o que não está no texto de Holly Jackson.

A escolha faz sentido do ponto de vista emocional: quanto mais consolidado o relacionamento, mais doloroso é ver Pip se afastando de todo mundo conforme o peso da investigação vai pesando sobre ela. É o tipo de mudança que não contradiz o livro, mas amplifica o efeito que o livro já pretendia provocar.

A acusação contra Max

Essa é uma das diferenças mais relevantes, e mais carregada de implicações. No livro publicado nos Estados Unidos, Max é processado por sequestro porque o prazo de prescrição para crimes sexuais já havia expirado. Na versão britânica do livro, a acusação é estupro. A série optou pela versão britânica, o que é coerente tanto com a ambientação da produção quanto com a seriedade que o crime merece.

Nomear o crime pelo que ele é faz diferença. Chamar de sequestro o que Max fez com Nat e Becca minimiza o que aconteceu, cria uma distância narrativa que a série recusa. É uma escolha clara, e acertada.

Becca e Nat têm voz

No livro, o que sabemos sobre os crimes de Max chega filtrado: através de e-mails, depoimentos relatados , relatos de terceiros. A série, por ter um ponto de vista onisciente, pôde mostrar Becca e Nat contando suas próprias histórias diretamente. São cenas difíceis de assistir, e é exatamente esse o ponto.

Quando o veredito “não culpado” aparece depois que o espectador viu aquelas mulheres falando com a própria voz, o efeito é visceral de uma forma que o livro, por limitação de formato, não consegue reproduzir da mesma maneira. A série entendeu que tinha uma ferramenta que o livro não tinha, e a usou bem.

Manual de Assassinato para Boas Garotas

A identidade da Mulher A

No livro, Pip descobre cedo que Nat da Silva é a Mulher A no processo, a segunda vítima de Max. Na série, essa informação é retida por mais tempo. Pip sabe que existe uma Mulher A, sabe que Jamie a conhece, mas não sabe quem é.

Isso transforma o começo da temporada em um duplo mistério: quem desapareceu e quem é a vítima que esse desaparecimento pode silenciar. É uma manipulação legítima da ordem das informações, o tipo de coisa que a televisão faz bem quando sabe o que está fazendo.

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Cara em espiral: uma deterioração que o livro só esboça

No livro, Cara e Pip permanecem próximas ao longo de Good Girl Bad Blood. Cara usa o humor ácido como escudo contra o julgamento que enfrenta desde que o pai foi preso, mas a amizade segura. Na série, Cara chega a usar MDMA, e em um momento de embriaguez diz a Pip que ela destruiu sua vida. Pip internaliza aquilo, se afasta ainda mais.

A escalada é mais dramática do que no livro, e talvez mais honesta sobre o que acontece com quem está no centro de um escândalo público sem ter pedido para estar. A reconciliação das duas no final existe tanto no livro quanto na série, mas na tela ela tem mais peso porque o afastamento foi mais fundo.

A festa de assassinato vem de outro livro

A festa de aniversário de Connor, com temática de jogo de assassinato, não está em Good Girl Bad Blood. Ela vem de Kill Joy, a novela que Holly Jackson escreveu como prelúdio à série, se passando pouco antes dos eventos do primeiro livro.

A série condensa e reposiciona o evento na 2ª temporada, e funciona: o aniversário de Connor dá a Pip e Jamie uma cena juntos antes do desaparecimento, e isso importa narrativamente.

É o tipo de liberdade que só a própria autora no roteiro permitiria: pegar de outro texto da saga e encaixar onde serve melhor.

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Stanley Forbes: de jornalista a funcionário de clube de golfe

No livro, Stanley é jornalista, e essa função dá a ele mobilidade e desculpa narrativa para aparecer em qualquer lugar, fazer perguntas e ter acesso a informação. Na série, ele foi cortado da primeira temporada e aparece só na segunda, trabalhando em um clube de golfe.

A profissão muda, o papel de figurinha suspeita permanece. Cada vez que ele aparece em um lugar onde não deveria estar: um cemitério, um prédio abandonado, o sinal vermelho acende naturalmente.

A série perdeu o Stanley jornalista, mas encontrou um jeito de fazer sua presença funcionar de forma diferente.

Ravi advogado: uma linha do tempo comprimida

No livro, Ravi só começa a estagiar em um escritório de advocacia no terceiro volume da série. A série adianta isso para a 2ª temporada, e usa a situação para revelar mais uma camada da vilania de Max: quando Pip se recusa a abandonar o caso, Max usa sua influência para forçar a demissão de Ravi do estágio. É didático sobre como pessoas poderosas silenciam quem as ameaça, e serve à temporada.

Child Brunswick: uma detalhe removido por empatia

No livro, Child Brunswick, a criança forçada pelo próprio pai a atrair outras crianças para serem assassinadas, também ajudou a descartar os corpos das vítimas. A série remove esse detalhe.

Ele continua sendo apresentado como vítima de abuso em ambas as versões, e em ambas ele testemunha contra o pai. Mas a série optou por não incluir aquela informação específica, tornando mais fácil para o espectador ter empatia sem ressalvas.

É uma escolha que pode ser debatida, o livro apresenta a complexidade da cumplicidade forçada, mas é compreensível dentro de uma produção que quer o público ao lado de Brunswick sem vacilação.

Manual de Assassinato para Boas Garotas está disponível na Netflix.

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